Currículo que contrata, demite também

Julho de 2018

Numa empresa da nova economia, um documento antiquado e considerado coadjuvante determinou a queda do CEO de uma das empresas expoentes desse mundo da tecnologia e da informação em tempo real. Scott Thompson renunciou ao principal cargo do Yahoo por conta de informações falsas no seu currículo.

Você pode estar pensando que o fato de não constar uma formação no currículo não deveria impactar na qualidade do serviço prestado pelo profissional. Mas veja que a questão não é essa: o conselho da empresa colocou em evidência o princípio ético da atuação do seu primeiro executivo como um exemplo para toda a empresa.

As empresas gostariam de contratar funcionários pelo que eles serão, mas é difícil fazer esse exercício de futurologia e acertar de primeira. Nós somos o que desejamos ser, mas somos também o que falamos, o que fizemos e o que realizamos. Somos ainda o que falam de nós, os reconhecimentos que conquistamos. Essa radiografia determina alinhamento entre a vaga disponível e o candidato que será convocado.

Por isso, a equipe de recrutamento recorre ao currículo para mapear e filtrar candidatos num processo que até pode ser considerado arcaico. Não é obviamente a fonte exclusiva para a tomada de decisão, mas ainda é um recurso legítimo para orientar o processo de seleção.

Naquele pedaço de papel (ou arquivo eletrônico), muitas vezes, estão provas de comportamentos e habilidades desejadas, além de registrar resultados conquistados. São pistas válidas, mas também revela a postura ética do candidato ao se apresentar sem inflar sua própria história.

Scott Thompson não deve ter se beneficiado por colocar uma formação que não tinha. Talvez tenha sido um erro involuntário. Estou certo que outros motivos muito mais relevantes levaram à sua escolha. Mas foi a incoerência entre discurso e prática o pano de fundo nesta situação que culminou com sua renúncia.

Não gosto de pensar no currículo como um documento frio com dados pessoais, formação, escolaridade, experiência profissional e trabalhos realizados. Agrada-me a ideia de elaborar uma biografia, como a história escrita sobre a vida de uma pessoa.

Essa história está escrita em um currículo, mas também na rede de relacionamentos (familiares e de amizade) que temos (e, cuidado, em suas redes sociais investigadas por quem seleciona), no livro de nossa vida e em nossas atitudes diárias. Somos escravos dessa trajetória e dependemos dela para continuar a caminhar ou para rever nossas direções. Não somos um arquivo vazio nem quando nascemos, visto que não somos tábula rasa (não nascemos vazios, mas sim com um programa genético) .

É impossível esquecer o que somos. Essa realidade está escrita no currículo e na nossa história de vida.

Fonte: http://colunas.revistaepocanegocios.globo.com/carreiraevida/2012/05/14/curriculo-que-contrata-demite-tambem/